Meu Peteleco
Quando eu era criança, minha mãe sempre falava que se a gente apanhasse na rua, quando chegasse em casa, apanhava novamente. Isso facilitava muito as coisas, pois tudo era resolvido antes de dobrarmos a esquina. Facilitava pra ela, pois não sabendo do problema, ele não existia. Simples assim. Só que eu tinha um grande e de difÃcil solução. Não posso nem chamar de grande, pois MarcÃlio, sim, meu problema tinha nome e só não tinha sobrenome porque eu nunca perguntei, era pequeno e magro, mas batia com muita competência. Os dias que eu não apanhava eram tão poucos que eu nem computava. E no dia que MarcÃlio acordava de ovo virado eu tava lascada. Se fosse hoje tudo isso, a escola já estaria fechada, MarcÃlio no AnÃbal Bruno e eu, sabe Deus, talvez drogada, jogando filho pela janela, internada numa clÃnica tratando dos traumas ou na melhor das hipóteses, dando entrevista para o Globo Reporte, falando do estrago que o bullying me fez.
Sim senhores, o bullying existia na minha infância, só não existia com esse nome e a forma de resolvê-lo era diferente. Mas como na vida tem coisas que o MasterCard não paga, pra mim uma deles é amigo. Pois bem, reuni meus quatro amigos de rua e contei o que estava me acontecendo e no outro dia o problema foi resolvido. Meus quatro amigos que também estudavam na mesma escola, deram a maior surra que MarcÃlio deveria ter levado dos pais e não levou. E pra não deixar dúvida de que eu era a mandante, quando tudo terminou, fui lá e dei um peteleco na orelha dele. Humilhei.
Nunca mais soube de MarcÃlio. Já perdi algum tempo imaginando o que pode ter acontecido com ele, o que ele anda fazendo e confesso que nada de bom me ocorre, pois o garoto era realmente um descompensado que aos 8, 9 anos, já vinha mostrando que não veio nessa vida para fazer graça. A lembrança dele sempre aparece quando vejo alguma manchete de jornal onde uma mulher foi morta por seu companheiro ou o pai agrediu um filho. Logo penso: Foi um MarcÃlio.
Não nego que morro de medo de encontrar mais MarcÃlios na vida, mesmo continuando tendo meus amigos para me proteger. Tenho medo principalmente de encontrar esse MarcÃlio em particular, porque acredito que uma surra o sujeito pode esquecer, agora, um peteleco é quase impossÃvel.
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Maristela, olhe pelo lado bom da experiência. Quem sabe o seu peteleco ajudou MarcÃlio a se dar conta da existência do lóbulo de sua própria orelha. Hoje, talvez, possa ele, sob certas circunstâncias, que não cabe aqui supor nem tampouco imaginar, ser-lhe profundamente grato por dispor do recurso de – utilizando o indicador e o polegar de uma das mãos – apertar delicadamente a caidinha da orelha outrora e para sempre petelecada, enquanto pronuncia a famosa expressão “Foi daqui!”